Fernando Oliveira
Agência BOM DIA
Tão logo
souberam da vinda de Robert Crumb ao Brasil, fãs de HQs correram para comprar
ingressos para a Flip ou para marcar presença na tarde de autógrafos que ele
faria em São Paulo, alguns dias depois. A esperança, claro, era conseguir uma
assinatura, um afago do quadrinista bonachão. O que ninguém esperava, no
entanto, era se deparar com o grande mau humor do autor. De tão antissocial,
Crumb chegou a escalar um corrimão na livraria onde autografou alguns livros
para fugir dos muitos leitores que lá se aglomeravam, numa atitude quase fóbica
que deixaria o falecido e rabugento Harvey Pekar com uma certa inveja.
O
episódio, claro, deve entrar para o folclore e não impedirá seus seguidores de
comprar seus mais recentes trabalhos publicados no Brasil, “Meus Problemas
com as Mulheres” (Conrad, 100 págs., R$ 49,90) e “Kafka” (Desiderata, 184 págs.,
R$ 39,90), que chegaram há alguns dias nas livrarias.
Em “Meus
Problemas...”, o norte-americano expõe alguns traços de personalidade e, como
sempre, carrega nas tintas para retratar a mistura de devoção e desprezo pela
figura feminina. Para mostrar a fixação por mulheres e seus fetiches, o
quadrinista não recorre a modelos de beleza. Nada de estereótipos
esquálidos e altos. Aqui, cabem mulheres bem fornidas, cheias de curvas – e
defeitos. Como fica claro na leitura, a inspiração vem de causos ocorridos na
própria vida afetiva, devidamente acrescidas de uma certa falta de pudor. O
curioso é que esta compilação foi organizada pela editora brasileira, que juntou
algumas tiras.
Biografia
Já “Kafka” é na verdade uma
reedição – a graphic novel mais recente de Crumb segue sendo “Gênesis”,
publicada por aqui no ano passado – de uma de suas HQs mais famosas, uma versão
ilustrada da vida e das obras do escritor tcheco Franz Kafka, autor de clássicos
como “A Metamorfose” e “O Processo”. A novidade fica por conta do novo prefácio
do livro, escrito pelo quadrinista Allan Sieber, que tenta traçar alguns
paralelos entre os dois autores.
Apesar de não oferecer um material
inédito, os dois álbuns são uma boa amostra da arte cáustica de Crumb,
especialmente para quem ainda é muito familiarizado com sua obra. Criador de
personagens antológicos como Fritz, the Cat e um dos principais nomes das
HQs em todo o mundo, ele ganhou fama ao integrar, nos anos 60, a revista Zap
Comix, onde trabalhou com mestres como Gilbert Shelton, Victor Moscoso, Robert
Williams e Rick Griffin. Não por acaso, boa parte dos desenhistas de hoje se
influenciaram por seu traço e histórias, sempre com temática underground. Mal
humorado ou não, Crumb segue entretendo.
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