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27/02/2010

'Madchester' paulista

Divulgação 'Madchester' paulista

Fabiano Alcântara
Agência BOM DIA

De cara, é difícil encontrar algum paralelo entre a Manchester paulista, apelido antigo dado a Sorocaba que pegou nos anos 1950 em um anúncio da Ligth, e a velha City, berço da revolução industrial e de bandas como Joy Division, New Order, A Certain Ratio, The Durutti Column e Happy Mondays.

Mas ao perambular pela casa de shows Asteroid e ouvir algum hit dos anos 1980 berrando das caixas de som, desde que você releve o calor, é fácil se sentir entre os anos 1980 e 1990 na The Haçienda, o famoso clube dos anos da "Madchester" – trocadilho com mad (louco) e o nome da cidade.

Como a The Haçienda, o Asteroid não se prende a estilos definidos, um dia você testemunha o show de uma nova promessa da música brasileira, no outro um veterano do jazz e logo depois se depara com riffs envenenados de uma banda como a Black Drawing Chalks.

Ligadas em rede, as novas bandas circulam virtualmente e caem na estrada. De volta de uma turnê pelo Sul brasileiro e com datas no Canadá e nos EUA, a The Name vem conquistando espaço no indie nacional com seu pós-punk bastante festivo e moderno.

Ao mesmo tempo em que o som remete a atmosferas oitentistas, também converge para a pegada característica da gravadora DFA e seu mentor James Murphy, do LCD Soundsystem. É possível perceber paralelos com The Rapture, Hot Chip, Radio 4, Le Tigre e também com as clássicas Talking Heads e Gang of Four.

No mês que vem, a The Name irá ao festival South By Southwest, local de onde frequentemente surgem apostas mundiais. Se tudo correr como esperado, eles já tem um mote para a imprensa mundial, explicar porque Sorocaba é chamada de Manchester paulista.

O baterista Alves fala que as perspectivas em relação à internacionalização da banda são encaradas com naturalidade. "Sempre foi uma grande busca nossa fazer excursões e levar nosso show pra outros países. Queremos apenas que as pessoas lá gostem e consumam o nosso trabalho e que a gente possa fazer esse tipo de turnê mais e mais vezes, mesclando datas isoladas com festivais", torce.

Sobre a sonoridade que a banda está buscando, o baixista Molinari reforça a intenção de fazer algo dançante. "Como nossa base é o pós-punk, que mescla vários estilos musicais, conseguimos misturar elementos eletrônicos, percussão e outras influências pra chegar na sonoridade que temos hoje. E acho que estaremos sempre mudando, sem perder a essência, mas sempre com músicas para dançar", conclui.


SUBTERRÂNEO
O verão dos piratas
Existe outro ponto de aproximação entre Sorocaba e a Inglaterra. O termo rádio pirata surgiu no início da década de 1960 em Londres para identificar irradiações em FM cuja estação emissora encontrava-se em um navio na costa britânica, fora do controle.

A experiência, que forçou a mídia inglesa a dar espaço para o rock e a cultura pop também guarda relação com Sorocaba. Um fenômeno ocorrido no começo dos anos 1980 deu origem ao chamado  Verão de 1982 da radiodifusão livre no Brasil. 

Segundo o Centro de Mídia Independente, a cidade chegou nesta época a ter cem emissoras no ar. Algumas delas se chamavam Estrôncio 90, Alfa 1, Colúmbia, Fênix, Star e Centauros. Também em Sorocaba, em 1985, surgiu a primeira experiência conhecida de televisão livre na América Latina: a TV Livre de Sorocaba.

A iniciativa foi organizada por Luiz Algarra, um ex-repórter da TV Gazeta-SP, Cláudio Gambaro, técnico em transmissão, e Carlos Alberto de Souza Filho, um estudante de 17 anos. (Fabiano Alcântara)


RESENHA DA SEMANA
Campanella surpreende


Conhecido por sua comédia de sucesso "O Filho da Noiva" (2001), o diretor argentino Juan José Campanella surpreende pela profundidade e combinação de gêneros de seu novo longa, "O Segredo dos seus Olhos", indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro o filme, é protagonizado por Ricardo Darín, ator-fetiche de Campanella, aqui em um registro diferente daquele que o transformou numa presença constante em comédias argentinas.

Como pede seu personagem, o oficial de justiça Espósito, ele tem uma interpretação mais contida e repleta de nuances. A maquiagem contribui nas idas e vindas no tempo da narrativa, mas é o trabalho do elenco que dá credibilidade à combinação de estilos e à transição entre passado e presente.

Roteirizado por Campanella e pelo escritor Eduardo Sacheri (autor do romance no qual foi inspirado), o filme toca em feridas da história argentina sem nunca fazer destas o seu tema principal, ou sua razão de ser.

É o filme mais sombrio e mais interessante do diretor que, ao combinar clima noir com um drama dos romances frustrados, é capaz de prender a atenção. Em se tratando da direção, aliás, existem algumas sequências memoráveis. Especialmente uma longa perseguição num estádio de futebol abarrotado de torcedores numa noite de jogo. (Alysson Oliveira, Reuters)

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