John Boyne nasceu na Irlanda, em 1971. É autor de sete romances e foi
traduzido em mais de trinta línguas. “O Menino do Pijama Listrado” (2006)
conquistou dois Irish Book Awards, vendeu mais de 5 milhões de cópias ao redor
do mundo e foi adaptado para o cinema em 2008. O “Vale a pena ler de novo” desta
semana traz um trecho do “O Menino do Pijama Listrado”, lançado no Brasil pela
Companhia das Letras. Leia livros!
Bruno Faz uma
Descoberta
Certa tarde, quando Bruno chegou em casa vindo da escola,
surpreendeu-se ao ver Maria, a governanta da família - que sempre mantinha a
cabeça abaixada e jamais levantava os olhos do tapete, - de pé no seu quarto,
tirando todos os seus pertences do guarda-roupa e arrumando-os dentro de quatro
caixotes de madeira, até mesmo aquelas coisas que ele escondera no fundo e que
pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém.
“O que você
está fazendo?”, ele perguntou tão educadamente quanto pôde, pois, embora não
estivesse contente por chegar em casa e descobrir alguém remexendo nas suas
coisas, sua mãe sempre lhe dissera para tratar Maria com respeito e não
simplesmente imitar a maneira com que seu pai a tratava. “Tire as mãos das
minhas coisas.”
Maria sacudiu a cabeça e apontou para a escada atrás
dele, onde a mãe de Bruno acabara de aparecer. Era uma mulher alta, de longos
cabelos ruivos, presos numa espécie de rede atrás da cabeça; ela estava
retorcendo as mãos em sinal de nervosismo, como se houvesse algo que ela não
quisesse falar ou alguma coisa em que não quisesse acreditar.
“Mãe”,
disse Bruno, marchando em direção a ela, “o que está acontecendo? Por que a
Maria está mexendo nas minhas coisas?” “Ela está fazendo suas malas”, a mãe
explicou. “Fazendo minhas malas?”, ele perguntou, repassando rapidamente os
eventos dos últimos dias para avaliar se fora um mau menino ou se dissera em voz
alta as palavras que ele sabia não poder dizer e, por isso, estava sendo mandado
embora. Mas não conseguiu pensar em nada que justificasse tal pensamento. Na
verdade, durante os últimos dias ele se comportara de maneira perfeitamente
decente com todos e não conseguia se lembrar de ter criado nenhuma confusão.
“Por quê?”, ele perguntou então. “O que eu fiz?”
A mãe já havia entrado
em seu próprio quarto a essa altura, mas Lars, o mordomo, estava lá, fazendo as
malas dela também. Ela suspirou e jogou as mãos para o ar em sinal de frustração
antes de marchar de volta à escada, seguida por Bruno, que não ia deixar o
assunto morrer sem uma explicação satisfatória.
“Mãe”, ele insistiu. “O
que está havendo? Estamos de mudança?” “Venha comigo até o andar de baixo”,
disse ela, levando-o até a ampla sala de jantar onde o Fúria estivera para comer
com eles na semana anterior. “Conversaremos lá embaixo.”
Bruno desceu as
escadas correndo e até a ultrapassou na descida, de maneira que já estava
esperando pela mãe na sala de jantar quando ela chegou. Ele observou-a sem dizer
nada por um momento e pensou consigo que ela não devia ter aplicado corretamente
a maquiagem naquela manhã, pois as órbitas dos olhos estavam mais avermelhadas
do que de costume, como os seus próprios olhos ficavam quando ele criava
confusão e se metia em encrenca e acabava chorando.
“Veja, Bruno, não há
motivo para se preocupar”, disse a mãe, sentando-se na cadeira na qual se
sentara a bela mulher loira que viera jantar acompanhando o Fúria e que acenara
para ele quando o pai fechou a porta. “Na verdade, acho que será uma grande
aventura.”
“Que aventura?”, ele perguntou. “Estão me mandando embora?”
“Não, não é apenas você”, ela disse, parecendo que ia abrir um sorriso
momentâneo, mas mudando de idéia. “Todos nós vamos embora. Seu pai e eu, Gretel
e você. Todos os quatro.” Bruno pensou a respeito e franziu o cenho. Não o
incomodava em especial se Gretel fosse mandada embora, porque ela era um Caso
Perdido e só o metia em encrencas. Mas parecia um pouco injusto que todos
tivessem que acompanhá-la.
“Mas para onde?”, ele perguntou. “Aonde vamos
exatamente? Por que não podemos ficar aqui?”
“É o trabalho do seu pai”,
explicou a mãe. “Sabe como isto é importante, não sabe?” “Sim, é claro”, disse
Bruno, acenando com a cabeça, pois sempre havia na casa muitos visitantes –
homens em uniformes fantásticos, mulheres com máquinas de escrever das quais ele
deveria manter longe as mãos sujas –, e eram todos sempre muito educados com o
pai e diziam que ele era um homem para ser observado e que o Fúria tinha grandes
planos para ele. “Bem, às vezes, quando uma pessoa é muito importante”,
prosseguiu a mãe, “o homem que o emprega lhe pede que vá a outro lugar, porque
lá há um trabalho muito especial que precisa ser feito.” “Que tipo de
trabalho?”, perguntou Bruno, porque, se fosse honesto consigo mesmo – e ele
sempre tentava ser –, teria de admitir que não sabia ao certo qual era o
trabalho do pai.
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