Sérgio Sant'Anna nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. Iniciou sua carreira de
escritor em 1969, com os contos de O sobrevivente, livro que o levou a
participar do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados
Unidos. Teve obras traduzidas para o alemão e o italiano e adaptadas para o
cinema.. Recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti, a mais recente pelos contos de O
voo da madrugada (2003), que recebeu também o prêmio APCA e o segundo lugar no
prêmio Portugal Telecom de literatura. Leia
livros!
No
último minuto
CANAL 5 - É uma rebatida de defesa deles. A
bola vem alta e cai para o Breno, nosso médio apoiador. Ele mata no peito, põe
no chão e aí perde o domínio da pelota. Mas ninguém vai se lembrar disso: que a
primeira falha foi do Breno. A bola fica, então, para o meia-armador deles, o
Luiz Henrique. É o momento do desespero, o último minuto. Nós estamos jogando
pelo empate e eles precisam da vitória. O placar é um a um. O Luiz Henrique
lança a bola para a esquerda, num passe longo em profundidade. É um desses
lançamentos de araque, na afobação de fim de jogo, só pra ver o que acontece. A
bola vai com força demais, lá para o lado esquerdo. Mas o ponta deles acredita
na jogada e bate o nosso lateral direito na corrida. Com a velocidade da bola,
ela deve sair pela linha de fundo, longe do gol. Mas o ponta deles, o
Canhotinho, é raçudo e vem na corrida, dando tudo o que pode. O nosso zagueiro
direito ficou muito pra trás e o Canhotinho vem na maior correria. É nessa hora
que eu grito para o Lula: "Vai nele, vai nele". Mas grito não se escuta na
arquibancada nem na TV. E o Lula é o zagueiro central da seleção e, entre mim e
ele, eles preferem me queimar. "Vai nele, vai nele", eu estou gritando, por
precaução. Porque ninguém pode acreditar numa jogada dessas. E o Lula vai só pra
garantir a saída da bola. Ele não entra duro no lance, não entra com fé. O
Canhotinho chega já totalmente sem pernas, no fim daquele pique, mas ainda bate
na bola de canhota, exatamente sobre a linha de fundo. E cai lá em cima dos
fotógrafos.
É um chute rasteiro, um centro chocho, e eu grito: "Deixa".
Eu fechei o ângulo direitinho e caio na bola. Eu sinto a bola nos meus braços e
no peito. E sei que a torcida vai gritar e aplaudir, desabafando o nervosismo,
naquele último ataque do jogo. Eu tenho a bola segura com firmeza contra o peito
e, de repente, sinto aquele vazio no corpo. Eu estou agarrando o ar. A bola
escapando e penetrando bem de mansinho no gol. A bola não chega nem a alcançar a
rede; ela fica paradinha ali, depois da linha fatal. E eu pulo desesperadamente
nela, puxando a bola lá de dentro. Mas é tarde demais, todo mundo já viu que foi
gol. O estádio explode e é como se minha cabeça estourasse. Eu vejo e ouço
aquilo tudo: o time deles se abraçando, a zoeira da multidão, os foguetes e o
nosso time que parte pra cima do juiz, numa tentativa inútil de anular o gol. Eu
ouço e vejo aquilo, mas é como se tudo estivesse muito longe de mim, sem nenhuma
relação comigo.
EM CÂMERA LENTA - O ponta-esquerda deles, o Canhotinho,
está tão longe da bola que parece impossível que consiga alcançá-la. O Tião,
nosso zagueiro direito, até parou depois que foi batido na corrida. Ele fica
olhando lá de longe, com as mãos nas cadeiras. E o Canhotinho corre. O passe foi
tão longo que mesmo em videoteipe, já sabendo do jogo, a gente custa a se
convencer que ele chegará a tempo de tocar na bola. Então me vem, agora, essa
sensação absurda de que ainda pode acontecer tudo diferente, eu corrigir minha
falha. Me dá vontade de gritar mais forte com o Lula ou sair eu mesmo do gol,
qualquer coisa assim. Mas o Lula demora uma enormidade pra ir no Canhotinho. E,
quando vai, é todo frouxo e displicente. E sai aquele chute fraquinho,
inteiramente sem ângulo. A bola passa num espaço diminuto, entre o pé do Lula e
a linha de fundo. E eu caio nela corretamente, como manda o figurino, o corpo
todo protegendo a bola. A bola que vem de mansinho, em câmera lenta. Essa eu não
deixo passar, eu não posso deixar passar.
Eu agarrei a bola, ela está
segura nos meus braços e no meu peito. Nós vamos ser campeões. Eles param o
teipe só pra mostrar isso: como eu estou tranqüilo com a bola. Nesse instante,
nós ainda somos os campeões do Brasil. Mas eles põem o teipe de novo pra rodar,
ainda mais lentamente do que antes. E a bola, como se tivesse força própria,
escorrega num pequeno vão entre o meu peito e o braço. E rola devagarinho,
chorando, pra dentro do gol. Aí eu dou aquele salto ridículo e puxo a bola outra
vez. O comentarista diz que eu fui catar as penas do frango.
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