>>Assine BOM DIA - a maior rede de jornais do país!

ASSINE BOM DIA

SAC 0800 709 0505

Anuncie!
HORA CERTA
Click Seminovos




Enquete

Sobre qual desses temas os candidatos a deputado estadual e federal devem opinar?
  • votar Resultado
Você está no BOM DIA BAURU

LITERATURA

Vale a pena ler primeiro


TAGS: /valeapenalerprimeiro

Bêbado, rouco e louco

Por Alexandre Durigon

anuncie!

Afobório é o pseudônimo do contista, poeta e ilustrador gaúcho Alexandre Durigon. Cultuado em todo Brasil pelo seu texto sem paralelos, pessimista, visceral e fantástico, ele mantém o blog http://afoborio.blogspot.com - onde posta várias de suas obras. O texto desta semana foi publicado em seu blog. Leia livros!

Bêbado, rouco e louco

Ele não tinha dentes. Estava sujo, tremia, olhava-me. Atirei-lhe um careta. Enquanto o crivo viajava, o cara o acompanhava pelo ar, mas não se movia. Fiquei observando a cena e meu âmago me chutou. Algo me dizia, “Cara, esse merda vai deixar cair na calçada molhada.”. O porra não se mexeu como eu pressentia e o cigarro beijou o chão. “Bosta. Duas vezes bosta.” – pensei.

Resolvi sová-lo de pancada. Antes que eu o alcançasse, ouvi o barulho de uma sirene. “Mão na cabeça, vagabundo.” – disse o soldado. Eu e o cara, na parede. Mostrei meus documentos e me mandaram embora. Olhei para trás e vi o desgraçado empacotado na viatura.

Cheguei e fechei a porta. Pensei em tomar um banho, mas o chuveiro estava queimado. Era frio. Fazia uma semana que não passava uma água no coro, não trocava as meias e as cuecas. “Droga.” – pensei. Coloquei a mão no bolso e lembrei, “Merda, esqueci no mercadinho.”.
Com a cara fechada voltei para a rua. A tempestade aumentava.

Existia água até mesmo dentro de minha cabeça. Entrei e já intimei a tia do caixa. Ela era gorda e feia, tinha dentes, só que amarelos. Antes que eu falasse, me alcançou o bagulho.

Peguei o columa, comprei cigarros e conhaque. Olhei para o céu e vi aqueles infinitos pingos que se transformavam em uma avalanche de água. Sentei no mesmo lugar onde levamos o atraque. Acendi um. As pessoas que passavam me olhavam.

Encostei-me ao lado da grade onde guardavam os botijões de gás. Tinha um cheiro forte. Vi um pacote grande. Estiquei minha mão e o alcancei. Tomei um gole profundo e soltei mais um rastro de fumaça pelas minhas fuças quentes. Abri a porra do embrulho. Era escama cara, umas 300g. Guardei-a na mochila.

Vi um jornal no chão. Acendi um cigarro e deixei o filtro encostado nele, bem no meio dos botijões. Umas duas quadras dali; fiz o primeiro teco. Sentei, queria ver. Em pouco tempo escutei a explosão e as chamas. O mercadinho foi para os ares. A rua encheu de pernas, braços, cabeças, cebolas, vidros, ferros, de tudo.

Fui até o bar do Gordura. Intimei direto o cara no balcão. Eu conhecia a dele. Separei 100g e moqueei a grana no bolso. Olhei a minha volta e senti o cheiro de cachorro molhado da clientela. A polícia estacionou a viatura do outro lado da rua. Tomei um gole do conhaque e dei o fora. Estava mais uma vez no ventre da tempestade.

Sentei debaixo de uma marquise perto dali. Fiz mais um lagarto. Meu nariz amorteceu de novo e o meu queixo também. Olhei para o outro lado e me liguei na puta da esquina. Ela usava meias arrastão. Suas pernas eram longas e bonitas. Acabamos num moquifo. Ela despiu-se e levou dois tiros na cabeça. Estava bêbado, rouco e louco.

topo ASSINE BOM DIA

SAC 0800 709 0505

TELEFONE | EXPEDIENTE | ANUNCIE | FALE CONOSCO | TERMOS DE USO

É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Jornal BOM DIA para fins comerciais.
Copyright© 2005-2010, BOM DIA. - Melhor visualizado em 1024x768
| Hospedado por M3corp