Afobório é o pseudônimo do contista, poeta e ilustrador gaúcho Alexandre
Durigon. Cultuado em todo Brasil pelo seu texto sem paralelos, pessimista,
visceral e fantástico, ele mantém o blog http://afoborio.blogspot.com - onde
posta várias de suas obras. O texto desta semana foi publicado em seu blog. Leia
livros!
Bêbado, rouco e louco
Ele não tinha
dentes. Estava sujo, tremia, olhava-me. Atirei-lhe um careta. Enquanto o crivo
viajava, o cara o acompanhava pelo ar, mas não se movia. Fiquei observando a
cena e meu âmago me chutou. Algo me dizia, “Cara, esse merda vai deixar cair na
calçada molhada.”. O porra não se mexeu como eu pressentia e o cigarro beijou o
chão. “Bosta. Duas vezes bosta.” – pensei.
Resolvi sová-lo de pancada.
Antes que eu o alcançasse, ouvi o barulho de uma sirene. “Mão na cabeça,
vagabundo.” – disse o soldado. Eu e o cara, na parede. Mostrei meus documentos e
me mandaram embora. Olhei para trás e vi o desgraçado empacotado na
viatura.
Cheguei e fechei a porta. Pensei em tomar um banho, mas o
chuveiro estava queimado. Era frio. Fazia uma semana que não passava uma água no
coro, não trocava as meias e as cuecas. “Droga.” – pensei. Coloquei a mão no
bolso e lembrei, “Merda, esqueci no mercadinho.”.
Com a cara fechada voltei
para a rua. A tempestade aumentava.
Existia água até mesmo dentro de
minha cabeça. Entrei e já intimei a tia do caixa. Ela era gorda e feia, tinha
dentes, só que amarelos. Antes que eu falasse, me alcançou o
bagulho.
Peguei o columa, comprei cigarros e conhaque. Olhei para o céu e
vi aqueles infinitos pingos que se transformavam em uma avalanche de água.
Sentei no mesmo lugar onde levamos o atraque. Acendi um. As pessoas que passavam
me olhavam.
Encostei-me ao lado da grade onde guardavam os botijões de
gás. Tinha um cheiro forte. Vi um pacote grande. Estiquei minha mão e o
alcancei. Tomei um gole profundo e soltei mais um rastro de fumaça pelas minhas
fuças quentes. Abri a porra do embrulho. Era escama cara, umas 300g. Guardei-a
na mochila.
Vi um jornal no chão. Acendi um cigarro e deixei o filtro
encostado nele, bem no meio dos botijões. Umas duas quadras dali; fiz o primeiro
teco. Sentei, queria ver. Em pouco tempo escutei a explosão e as chamas. O
mercadinho foi para os ares. A rua encheu de pernas, braços, cabeças, cebolas,
vidros, ferros, de tudo.
Fui até o bar do Gordura. Intimei direto o cara
no balcão. Eu conhecia a dele. Separei 100g e moqueei a grana no bolso. Olhei a
minha volta e senti o cheiro de cachorro molhado da clientela. A polícia
estacionou a viatura do outro lado da rua. Tomei um gole do conhaque e dei o
fora. Estava mais uma vez no ventre da tempestade.
Sentei debaixo de uma
marquise perto dali. Fiz mais um lagarto. Meu nariz amorteceu de novo e o meu
queixo também. Olhei para o outro lado e me liguei na puta da esquina. Ela usava
meias arrastão. Suas pernas eram longas e bonitas. Acabamos num moquifo. Ela
despiu-se e levou dois tiros na cabeça. Estava bêbado, rouco e louco.
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