Dias contados? Ainda usaremos muito petróleo – e por um bom tempo



O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse recentemente que o petróleo “está com os dias contados”. Ele fazia referência ao processo de transição energética, com a troca de fontes fósseis por outras tidas como limpas e renováveis.

Uma tendência que alcança até mesmo petroleiras, como a estatal Petrobras. Só em setembro a empresa anunciou duas parcerias com o setor privado nessa seara: uma para fornecer combustível de baixo carbono à Vale e outra para desenvolver megaturbinas eólicas com a Weg.

Segundo o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, nos próximos quatro anos a companhia vai destinar de 6% a 15% de seus investimentos para projetos de baixo carbono.

Mas, em meio a esses e outros incontáveis anúncios semelhantes no Brasil e no exterior, fica a questão: o petróleo está mesmo com os dias contados?

Apesar do avanço de fontes alternativas, ao que tudo indica ainda usaremos muito petróleo, gás natural e derivados. E por um bom tempo.

Consumo de petróleo nunca foi tão alto

A demanda global pelo óleo, vale dizer, nunca foi tão alta. Em agosto, a Agência Internacional de Energia (AIE) revelou que o consumo diário atingiu a marca inédita de 103 milhões de barris por dia em junho. A organização estima que a média de 2023 será de 102,2 milhões de barris diários, o maior consumo anual de todos os tempos.

Para se ter ideia, esse volume equivale a 29 vezes a produção brasileira, que nunca foi tão alta – em julho, o país atingiu o recorde de 3,5 milhões de barris por dia.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do governo federal, projeta que a produção nacional continuará subindo até chegar a um pico de 5,4 milhões de barris em 2029.

Para o mundo todo, a previsão da Opep – o cartel dos grandes exportadores – é de que ao fim desta década o mundo estará demandando cerca de 110 milhões de barris por dia, cerca de 8% mais que hoje.

Para a AIE, porém, a demanda vai crescer em ritmo cada vez mais fraco nos próximos anos e deve chegar ao nível máximo antes do fim da década, para em seguida passar a cair.

Em relatório publicado há três meses, a petroleira BP traçou três cenários de demanda, conforme a velocidade da transição para fontes renováveis. No mais conservador, a demanda permanece estável em torno de 100 milhões de barris diários até 2030 e cai abaixo de 90 milhões por volta de 2040. E, em 2050, ainda estará pouco acima de 70 milhões de barris.

No cenário mais ousado, de transição mais veloz, o consumo diário de petróleo cai para menos de 90 milhões de barris pouco antes de 2030, e a cerca de 50 milhões em 2040 e 20 milhões em 2050.

“A demanda de petróleo diminuirá, impulsionada pela queda no uso em transporte rodoviário à medida que a eficiência da frota de veículos melhora e a eletrificação se acelera. Mesmo assim, o petróleo continuará a desempenhar um papel importante no sistema energético mundial nos próximos 15 a 20 anos”, diz a BP no “Energy Outlook 2023”.

Projeções para o “pico do petróleo” fracassaram

Há um bocado de incerteza nessas projeções – quanto maior o horizonte, maior a chance de erro. Mas vale destacar que alguns dos maiores equívocos nesse ramo estiveram relacionados às projeções para o chamado “pico do petróleo”, momento em que a produção global atingiria seu maior nível para depois declinar. O suposto alcance desse marco foi sucessivamente adiado desde o século passado.

Para ficar num exemplo não muito distante, em 2004 – pouco menos de 20 anos atrás – a Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e Gás (Aspo, na sigla em inglês) estimava que esse topo seria atingido em 2005, com 64 milhões de barris por dia. Pelas contas da organização, em 2020 a produção global já teria caído para 43 milhões de barris diários, com o esgotamento das reservas.

Adotando metodologia menos restritiva e considerando uma maior proporção de petróleo recuperável nas reservas, a Administração de Informações de Energia do governo norte-americano (EIA, na sigla em inglês) foi mais certeira em projeção feita em 2003: seus principais cenários jogavam o pico do petróleo para 2030 ou depois.

Em seus cálculos, a Aspo adotou a metodologia do geólogo norte-americano Marion King Hubbert, que trabalhou na Shell. Em meados dos anos 1950, ele ficou célebre ao afirmar que o pico da produção petrolífera nos EUA seria atingido entre o fim dos anos 1960 e início dos 1970. Ele acertou – e esteve certo por muito tempo.

No ano de 1970 os EUA atingiram a marca histórica de 10 milhões de barris diários, que na sequência caiu até perto de 5 milhões de barris em 2008. Porém, Hubbert não contava com a revolução do óleo de xisto, que gerou um novo boom na última década e meia.

No último mês de julho, os EUA produziram 12,991 milhões de barris de petróleo por dia, segundo a EIA – apenas 9 mil barris a menos que o recorde de 13 milhões alcançado em novembro de 2019, antes da pandemia.

Petrobras não vai virar “empresa de catavento”, diz Prates

O presidente da Petrobras afirma que, a despeito de todas as outras matrizes em que a empresa está apostando, o petróleo vai conviver com a transição energética por muito tempo. Segundo ele, não existe a hipótese de a companhia se tornar uma “empresa de catavento”.

“Somos uma empresa de petróleo. Temos muito orgulho de ser uma empresa de petróleo. A humanidade precisa e ainda vai precisar de muito petróleo”, disse Prates na quinta-feira (28) em seminário sobre Matriz e Segurança Energética Brasileira realizado por FGV Energia e AmCham Rio, na capital fluminense.

Diante da plateia, continuou: “Queremos ser daqueles grupos que serão os últimos a produzir petróleo. Enquanto não houver um decreto, e isso não vai acontecer nunca, que acabou o uso do petróleo no mundo, nós queremos priorizar e produzir, porque é isso o que sabemos fazer de melhor. E isso é bom para a humanidade porque nós produzimos melhor do que os outros”.

Não por acaso, a Petrobras briga com o Ibama para obter licença ambiental para perfurar poço na Margem Equatorial, nova fronteira que é considerada um tesouro para o setor. As reservas estimadas, de 10 bilhões de barris de petróleo “recuperáveis”, equivale a quase todo o pré-sal, que ao fim de 2022 tinha reservas provadas de 11,5 bilhões de barris.

Prates citou outro exemplo do protagonismo do combustível fóssil nos próximos anos: de R$ 540,3 bilhões em investimentos em energia cadastrados pelo governo no Novo PAC, R$ 335,1 bilhões – quase dois terços do total – são para petróleo e gás.

Troca do petróleo será lenta: ele é barato, eficiente e insumo para inúmeros produtos

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo sustentam que pelos próximos 100 anos haverá petróleo e demanda por ele, mesmo com a transição energética. A substituição, dizem, é lenta, por pelo menos três fatores:

  • são muitos os produtos derivados do petróleo;
  • ele é mais barato do que as novas fontes que estão em desenvolvimento;
  • ele é confiável e o tempo comprovou sua eficiência, apesar dos efeitos colaterais sobre o meio ambiente.

“É só olhar para o que está vestindo, as roupas, o shampoo, o brinco. Até no anel de ouro, pois a chama de acetileno que o ourives usou para moldar vem do petróleo”, instiga Pedro Victor Zalán, fundador da Zag Consultoria.

Substituir o petróleo pode ser complexo mesmo para quem declara interesse e despende tempo e dinheiro nisso. A fabricante de brinquedos Lego, por exemplo, avisou dias atrás que abandonou seu esforço mais importante para eliminar plásticos à base de petróleo de seus famosos bloquinhos.

Há dois anos, a empresa havia anunciado testes com um protótipo de plástico reciclado de garrafas. Mas constatou que, por causa da exigência de novos equipamentos para a fabricação, as emissões de carbono ao longo de toda a vida útil do produto seriam maiores que as do bloco convencional.

“Nos primeiros dias, a crença era de que era mais fácil encontrar esse material mágico ou esse novo material (…) Mas isso parece não existir. Testamos centenas e centenas de materiais. Simplesmente não foi possível encontrar um material como esse”, declarou o CEO do grupo, Niels Christiansen, ao “Financial Times”.

No último dia 20, o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, comunicou que a data de proibição das vendas de veículos novos a gasolina e diesel foi adiada de 2030 para 2035. Motivo: boa parte da população não conseguiria custear a transição energética, por causa do custo do substituto, o carro elétrico.

“Parece que optamos por uma abordagem que imporia custos inaceitáveis às famílias britânicas em dificuldades”, admitiu. Segundo ele, o país seguirá um caminho “pragmático, proporcional e realista” para zerar emissões líquidas até 2050.

“O mundo real precisa de petróleo todos os dias”, diz geólogo

Geólogo e com 45 anos de experiência na área, Zalán sublinha que, para além do uso de derivados no transporte e na petroquímica, também será desafiador substituir o petróleo como fonte de energia. As fontes eólica e solar são mais caras e intermitentes – dependem de vento e sol para gerar energia.

“O petróleo não tem horizonte para acabar porque o mundo real precisa de petróleo todos os dias. As reservas [atuais] dão tranquilamente para 100 anos com a demanda existente”, diz Zalán, ex-consultor sênior na Petrobras.

Outro ponto que contribui para a vida longa do petróleo é que, além de ser mais barato que outras fontes que estão sendo desenvolvidas agora e requerem investimentos e tecnologias mais robustas, o combustível fóssil é mais acessível para países que muitas vezes não têm nem energia para toda a população.

Haitham Al Ghais, secretário-geral da Opep, afirmou em artigo publicado em 22 de setembro que o aumento da demanda esperado para os próximos anos será puxado, em parte, pelo crescimento da população global.

“Segundo a ONU [Organização das Nações Unidas], mais de 700 milhões de pessoas ainda não têm acesso à eletricidade e quase um terço da população mundial utiliza sistemas ineficientes e poluentes na cozinha. O petróleo pode e irá desempenhar um papel fundamental nos países em desenvolvimento para proporcionar acesso universal adequado e acessível à energia e erradicar a pobreza energética”, apontou.

Em contrapartida, diz o executivo, o setor investe em tecnologias mais limpas, descarbonização da indústria petrolífera, bem como em fontes renováveis e hidrogênio.

Helder Queiroz, professor do Grupo de Economia da Energia da UFRJ e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), levanta outra questão nessa mesma linha social: a viabilidade prática de trocar determinados produtos oriundos do petróleo por outras fontes.

Ele cita o exemplo do GLP, o gás de cozinha. “Imagine um país inteiro para trocar um fogão a gás por um elétrico, por exemplo. A demanda para essa troca precisa de recursos, tanto da disponibilidade de fogões para vender no Brasil quanto algum incentivo para o consumidor. E não temos política estruturada para isso”, diz. “Então, em quanto tempo mudariam-se as cozinhas no Brasil? Isso envolve décadas”, completa.

Indústria do petróleo deve passar por transformação

Por mais que aos poucos possa perder espaço na geração de energia e nos combustíveis, o petróleo continuará essencial para outros setores. Na prática, a própria indústria petrolífera passará por uma transformação conforme o consumo muda.

Marcio Félix, CEO da empresa Energy Plataform (EnP) e presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (ABPIP), esclarece que não se trata apenas de combustível ou eletrificação, mas de comportamento.

O fato de mais pessoas trabalharem em casa e usarem menos seus carros sintetiza a situação. À medida que o petróleo tem seu uso reduzido na indústria e nos transportes, diz, passará a ser direcionado para funções mais refinadas, tais como fertilizantes e farmacêuticos.

“O petróleo, na minha opinião, atravessa esse século ainda sendo importante por questões ambientais e econômicas. Ele vai ter vida enquanto tiver valor econômico. Estamos sempre em transição energética. O desafio é ter garantia energética, preço adequado e ter dimensão da sustentabilidade”, afirma.

“Quando eu entrei [na área], há 42 anos, se falava que em 20 anos, no máximo, se chegaria no pico da oferta do petróleo, e que o mundo ficaria um caos porque não teria para abastecer. Não aconteceu. Agora, se fala do pico da demanda nessa década. Mas vemos o consumo subindo bastante. Como em 2030 vai cair?”, questiona Félix.

Segundo a AIE, a indústria petroquímica deverá ser responsável por mais de um terço do crescimento da procura mundial de petróleo até 2030, e por quase metade do crescimento até 2050.

A China é um exemplo dessa transformação. O país aposta firme na eletrificação dos veículos: em agosto, segundo o HSBC Global Research, os elétricos responderam por 37% das vendas de carros novos no país em agosto.

Com isso, há quem espere que o consumo de petróleo na China atinja seu pico já neste ano, após triplicar nas últimas duas décadas. Assim, o mercado local de óleo passa a ser mais guiado pela indústria petroquímica.

A entrada de investimento estrangeiro em petroquímica na China desde o início de 2022 passou dos US$ 5 bilhões, de acordo com dados da plataforma financeira Dealogic citados em reportagem do “Financial Times”.

As perspectivas para a produção de petróleo no Brasil

O Brasil hoje vive seu recorde na produção do petróleo. Em julho, segundo o dado mais recente da ANP, o país produziu 3,5 milhões de barris por dia.

As projeções oficiais indicam que o número continuará crescendo até chegar ao pico de 5,4 milhões de barris diários em 2029, recuando na sequência – em seu último plano decenal, a EPE prevê uma produção de 4,9 milhões de barris em 2032.

“Esse pico poderia continuar e atingir um platô, dependendo do que se encontrar na Margem Equatorial’, argumenta Zalán.

Segundo o dado mais recente da ANP, de 2022, o Brasil tem reservas provadas de 14,85 bilhões de barris, dos quais 11,5 bilhões no pré-sal.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), o setor representa 10% do PIB industrial brasileiro e deve investir US$ 180 bilhões em exploração e produção no país até 2031.

Conteúdo editado por:Fernando Jasper



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