Empresas brasileiras ainda deixam a desejar em diversidade e clima


“O Observatório 2030 é uma iniciativa fundamental para entendermos o cenário do ESG aqui no Brasil. Sabemos o quanto é importante zerar as emissões, mas precisamos zerar em todos os escopos”, alerta Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil

O Observatório 2030, iniciativa do Pacto Global da ONU no Brasil e apoiada por organizações parceiras, que monitora dados públicos das empresas brasileiras em cinco categorias (clima, gênero, corrupção, salário digno e água), aponta que o número de funcionários treinados em anticorrupção aumentou dentro das empresas, tendo em vista o aumento de 43,2% em 2018 para 59,9% em 2020. No entanto, nos outros indicadores, os resultados são negativos: apenas duas companhias brasileiras possuem compromissos para mitigação de emissão de gases aprovado pela Science-Based Targets initiative (SBTi). Além disso, destaque negativo para compromissos de raça e mulheres. O positivo fica para o aumento da transparência.

A metodologia usada no Observatório 2030 avalia dados públicos de uma amostra de 82 empresas com atuação no Brasil, listadas na Bolsa de Valores, que reportam seus resultados nos padrões do Global Reporting Initiative (GRI) e são participantes do Pacto Global da ONU no Brasil. A atualização dos dados do Observatório é realizada anualmente e cobre os indicadores dos anos anteriores analisados pelas variáveis faturamento e setor. Os melhores indicadores estão relacionados ao tema anticorrupção. Entre 2018 e 2020, verifica-se um aumento de funcionários treinados em anticorrupção, tendo em vista o aumento de 43,24% em 2018 para 59,9% em 2020. Importante sinalizar que o percentual de terceiros treinados em corrupção ainda é muito baixo (0,4% em 2020), apontando ainda este desafio para as empresas.

Outro indicador importante, que é o canal de denúncias anônimas, também é positivo: 97,5% das empresas possuem um canal de denúncias aberto à sociedade, com garantia de anonimato e de não retaliação. Já nas outras metas analisadas, embora o discurso de combate às mudanças climáticas esteja em voga no setor empresarial, são poucas as empresas analisadas que são signatárias dos acordos baseados na ciência. Apenas duas companhias tiveram pelo menos uma de suas metas aprovadas, o que significa que apenas essas empresas, dentre as analisadas, adotaram metas certificadamente baseadas em estudos e pesquisas que têm base científica. Outras 14 possuem metas em aprovação. Dentre todas as analisadas, mesmo as que possuem outros tipos de compromisso de mitigação, há muito mais empresas com metas de redução para Escopo 1 (35) e para Escopo 2 (29), se comparado ao Escopo 3 (somente 12).

“O Observatório 2030 é uma iniciativa fundamental para entendermos o cenário do ESG aqui no Brasil. Sabemos o quanto é importante zerar as emissões, mas precisamos zerar em todos os escopos, sobretudo o 3. E estamos vendo que ainda pouca gente está olhando para isso. Como acontece em outras iniciativas, como o compromisso de raça, por exemplo. Estamos vendo o setor privado brasileiro e seus e suas líderes engajados e engajadas no tema, mas precisamos avançar. E rapidamente. Por isso que é tão importante monitorar o que está sendo feito e corrigir rotas”, afirma Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil, em nota.

Números tímidos também são observados em outro compromisso relacionado ao meio ambiente. Somente 13 empresas analisam o risco de escassez hídrica do ponto de vista tanto de quantidade de água, quanto da qualidade. E dentro desse universo, seis são do setor de Utilities, três de água e saneamento e três de energia elétrica (hidrelétricas), seguido pelo setor de consumo e alimentos (com três companhias que analisam questões relativas ao risco hídrico).

Raça e gênero
Em questões de raça e gênero, ainda há poucos dados disponíveis. Das 82 empresas analisadas, somente 15 reportam o percentual de colaboradores negros e negras em seus quadros funcionais. Se o tema está sendo amplamente debatido na agenda pública, as empresas precisam divulgar seus dados com transparência para que se possa entender a realidade no setor privado. Com relação a composição das empresas em percentual de mulheres, em todos os cargos (conselho, diretoria executiva, diretoria, gerência e coordenação), o percentual é maior quando as empresas são signatárias dos WEPs (Women’s Empowerment Principles). No entanto, vale destacar que menos da metade das empresas analisadas aderem ao compromisso (43,9%).

Nas questões de salário digno, a conclusão é que há baixa transparência das companhias nos indicadores, sendo que a proporção entre o salário da pessoa mais bem remunerada e a média do salário dos colaboradores foi divulgada por somente 14 empresas em 2020 (17% da base). Já a proporção de aumento salarial, por somente 7 (8,5%), no mesmo ano. A proporção entre o aumento salarial da pessoa mais bem remunerada e o aumento recebido pelos colaboradores aumentou significativamente entre 2019 e 2020. O setor de papel, celulose e madeira se destaca por, em termos absolutos, possuir as maiores discrepâncias salariais entre o mais bem remunerado e os demais colaboradores. Contudo, quando ponderado pelo valor gerado e distribuído aos funcionários, o segmento de bancos e serviços financeiros possui a maior diferença salarial.



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