Staying alive


O longo prazo só chega se o curto prazo for bem cuidado

No início da década passada, a PepsiCo., dona da Pepsi-Cola e da Elma Chips, iniciou um movimento rumo à fabricação de itens mais saudáveis

Um bom CEO pensa a sua empresa no longo prazo, certo? Sim, desde que não esqueça de que o futuro só chega se o presente estiver em ordem.

É o que deve ter passado pela cabeça de Mark Reuss, CEO da General Motors nos Estados Unidos, ao anunciar em fins de 2022 que a montadora “não deixará de produzir carros a combustão tão cedo”. São eles, afinal, que irão “financiar os elétricos”, próxima fronteira da indústria da mobilidade (matéria completa aqui). Trata-se de uma medida lógica e prudente. Transições tecnológicas não costumam ser simples nem baratas. Migrar de um padrão produtivo para outro exige investimento, aprendizado e, no caso dos automóveis, a estruturação de um ecossistema que estimule a adoção dos novos veículos pelos motoristas. 

Nada disso acontece rapidamente. Por isso, se de um lado a mudança é inevitável, de outro o timing ao abraçá-la é decisivo para a sobrevivência de um negócio. Isso acontece com hábitos de consumo, também. No início da década passada, a PepsiCo., dona da Pepsi-Cola e da Elma Chips, iniciou um movimento rumo à fabricação de itens mais saudáveis. Investiu em produtos sem glúten e com fibras, derivados de frutas e cereais, enquanto relegava a segundo plano as tradicionais marcas de junk food de seu portfólio. O resultado? As vendas de alimentos salutares não decolaram a ponto de conseguir compensar a perda de participação de mercado de refrigerantes e salgadinhos, obrigando a um recuo nas medidas “politicamente corretas”, segundo palavras da Exame (10/02/2022). 

A preocupação com o longo prazo é quase um fetiche dos executivos. Todos acham que o estão negligenciando, assoberbados pelas demandas correntes, já mostrava pesquisa de 1951 (citada por Henry Mintzberg em “Managing”, ed. Bookman, 2010, p. 167). Com a suposta aceleração das mudanças trazidas pela informática e pela internet, olhar para o futuro tornou-se um chavão do discurso corporativo, sempre em busca de pretensas lacunas e urgências (exemplo recente aqui). Mas dificilmente transformações severas são silenciosas ou repentinas. Até mesmo o mais desavisado CEO, se bem assessorado e disposto a ouvir, pode agarrá-las a tempo. Sem presente não há futuro. E antecipar-se a ele pode se mostrar mais uma precipitação do que mérito gerencial. Pois, como já alertava John Maynard Keynes, “no longo prazo estaremos todos mortos” – e o primeiro desafio é manter-se vivo hoje. 



Source link